Ainda Casa

Casa também é parte da jornada

Histórias de quem precisou recomeçar revelam que casa nem sempre é onde se chega, mas onde finalmente se consegue respirar

Por: Ana Clara Magro e Leandro Pinheiro

Na Odisseia, Ulisses atravessa mares, monstros e naufrágios para voltar para casa, mas o retorno nunca foi apenas sobre encontrar Ítaca, era sobre descobrir quem ele se tornou durante o caminho. Nenhum dos personagens ouvidos para essa reportagem voltou para a mesma casa que deixou. Algumas casas desapareceram, outras ficaram para trás. Algumas continuam de pé, mas já não comportam a mesma vida.

O que permaneceu foram os vínculos, as memórias, os objetos carregados na mudança, os pratos que esperam no fogão, as chamadas de vídeo atravessando dois mil quilômetros, os terços rezados em família, as orquídeas que florescem outra vez depois do fogo.

A psicóloga Natália Lopes acompanha desde seu início na psicologia clínica, histórias de pessoas que não tem experiência com a casa enquanto local físico ou não se sentem em casa com sua própria família, palavra coringa para tratar de casa.

“A vida sempre dá um jeito de abrigar a gente. Seja por meio de experiências, de pessoas, amigos. A família aparece de algum jeito com a casa, com o abrigo. Mas, de qualquer forma, a gente vai experienciar isso porque acho que todo mundo tem alguma palavra para associar com casa. Seja boa ou ruim, mas tem alguma palavra”, afirma.

Esse processo de reencontro com a própria casa nem sempre é imediato e, muitas vezes, nem é físico. Para Natália, a sensação de pertencimento se constrói junto com o amadurecimento emocional e o autoconhecimento, especialmente em momentos de ruptura.

Quanto mais você se conhece, quanto mais você passa por essas experiências que te fazem sentir sem chão, você começa a se questionar quem você é. E quanto mais você tem esse trabalho de autoconhecimento, de manutenção e compromisso consigo mesma, mais próximo você está de encontrar sua casa. Você pode encontrar em algum momento. Não tem como. Em algum momento você vai se encontrar. Porque você se encontrou. Então esse espaço vai ser representado externamente”

Nesse sentido, casa deixa de ser apenas o lugar onde se vive e passa a ser também um espelho de quem se é, ou de quem se está se tornando. Entre deslocamentos, perdas e reconstruções, o que se busca não é exatamente o retorno a um ponto fixo, mas a possibilidade de habitar a si mesmo com algum tipo de alívio.

Sem endereço

Vinícius Dalama traduz essa mudança a partir da própria trajetória. Para ele, a casa não está presa a uma cidade específica. São Gabriel da Cachoeira, sua cidade natal, segue sendo uma referência afetiva importante, mas Presidente Prudente não ocupa esse lugar. “Eu não vejo Prudente como a minha casa”, afirma.

Dalama não sabe qual é o seu futuro, mas entende que nenhuma cidade ou local consegue resumir aquilo que ele entende como lar. “Eu coloquei metas na minha vida, sonhos que eu queria realizar. E esse sonho não está em Presidente Prudente”, afirma.

Objetos acompanham Vinícius entre cidades (Foto: Marianne Santana)

A vida te abriga 

Thais Silva levou mais tempo para encontrar essa segurança. Por muito tempo, acreditou que estava procurando uma casa, hoje percebe que procurava um lar, um lugar onde pudesse se sentir segura, amada e, principalmente, que lhe desse força.

Hoje eu sou mãe, eu tenho o meu filho, e eu acho que nenhum problema do mundo, seja forte ou seja grande o suficiente, que eu não possa encarar e que eu não possa resolver por conta dele”

Quando fala sobre o filho, a voz muda de tom. As frases desaceleram. Algumas lembranças dos anos que passou no Lar Santa Filomena ainda machucam, mas parecem perder força diante daquilo que veio depois. A maternidade não apagou os abrigos e rejeições, mas ofereceu algo que ela nunca havia experimentado completamente: um vínculo verdadeiro.

Com o passar dos anos, outra descoberta se somou a essa. Depois de uma vida inteira em que sentia precisar dar conta de tudo sozinha e de ter criado uma armadura para se proteger, Thais conta que aprendeu a dividir esse peso com o atual marido. “Hoje eu consigo respirar e sair do papel de general da minha vida”, afirma.

Ela também encontra tranquilidade na convivência entre ele e o filho. No dia a dia, são eles que organizam juntos a rotina da criança. “Eles são bem companheiros, bem amigos, bem parceiros. Às vezes até fazem um complô contra mim. Eu falo: ‘o que é isso? O que está acontecendo?’”, brinca.

A maternidade transformou a relação de Thais com a ideia de casa (Foto: Arquivo pessoal/Thais Silva)

A parceria entre o marido e o filho representa para Thais uma rede de apoio que ajudou a redefinir o significado de lar (Foto: Arquivo pessoal/Thais Silva)

A vida também concedeu a ela a chance de recomeçar com pessoas importantes do seu passado. Entre elas, a que mantém com a irmã mais nova, Tainá. Enquanto Thais construiu sua família e permaneceu em Prudente, a caçula optou por não se casar e a não depender de ninguém, tanto que foi para Balneário Camboriú (SC) sozinha para seguir o sonho de fazer faculdade. Apesar da distância, as duas permanecem próximas por mensagens e ligações frequentes.

“Ela tem a mim, só que ela tá lá em outra cidade e eu tô aqui. Ela tem a mim pelo celular, por mensagem”, comenta.

Apesar de ter passado por momentos difíceis, uma das lições mais valiosas que Thais aprendeu foi a de romper com ciclos e a ajudar os outros, da mesma forma que se sentiu ajudada. “Deus sempre se mostrou na minha vida através de pessoas. E se pessoas sempre estiveram ali, estenderam a mão pra mim pra me ajudar a lidar com essa rejeição, então, eu acho que eu tenho que também reproduzir isso. Reproduzir pra pessoa ao lado que estiver precisando de ajuda. Porque quando eu precisei, me estenderam a mão”, diz.

Assim como Thais conseguiu se reconstruir, Lais está passando por esse mesmo processo, apesar de estar colocando os primeiros tijolos em sua fundação. Há pouco mais de três meses, ela deixou a casa onde passou grande parte da vida para morar sozinha. A mudança era desejada, planejada e, de certa forma, necessária.

Apesar de viverem em estados diferentes, Thais e Tainá mantêm uma relação construída por afeto, mensagens e chamadas frequentes (Foto: Arquivo pessoal/Thais Silva)

Morar em si 

Ainda assim, trouxe descobertas que ela não esperava encontrar. “Morando sozinha, eu fico muito mais silenciosa do que eu era quando eu morava com os outros. O que é curioso, porque eu posso fazer o barulho que eu quiser agora, mas eu não faço. Então, às vezes, é uma solidão boa, mas que satura a determinado momento”, observa.

A experiência também transformou sua percepção sobre os espaços físicos. Laís não discorda que a casa está associada a pessoas, relações e memórias. Apenas acrescenta que ela também é feita das marcas que deixamos nos lugares.

“Eu levo coisas materiais que hoje eu vejo que só eu tinha lá. A quantidade de livros, o violão Então eu levo coisas que, sem mim, aquela casa não teria.”

A mudança não envolve apenas objetos. Ela acredita ter levado consigo tudo aquilo que ajudou a construí-la.

Entre livros, música e memórias, Laís constrói aos poucos a casa que agora também carrega suas próprias marcas (Foto: Marianne Santana)

Eu levo as pessoas que construíram tudo o que eu tenho. E quando eu falo tudo, eu não falo só das coisas boas. Dos traumas também.”

Na avaliação da psicóloga Natália Lopes, ninguém abandona completamente as experiências que viveu. O que muda é a forma como elas passam a ocupar espaço dentro de nós. Ressignificar não significa apagar o passado, mas reconhecer sua existência sem permanecer preso a ele.

“Aceitar não é dizer: ‘que lindo, amei isso’. Aceitar é dar validade ao que aconteceu. É reconhecer, enxergar e não ignorar. É olhar para a sua história com carinho”, explica.

Diferente de muitos colegas da Geografia, que deixaram suas cidades para estudar em Presidente Prudente, Laís permaneceu. Nascida e criada na cidade, ela costuma brincar que seguiu o caminho oposto ao da maioria dos amigos. “Eu sou a que fica, não a que vai”, resume.

A permanência, porém, não significou imobilidade. Foi em Presidente Prudente que ela ingressou na Unesp, escolheu sua área de pesquisa e construiu parte das relações que hoje associa à ideia de casa. Entre elas está a namorada. “Quando ela vem pra cá, a casa tem outro significado. E quando eu vou pra lá, eu também me sinto em casa”, comenta.

Enquanto isso, o apartamento segue sendo construído aos poucos. Os livros ganham lugar nas estantes, o violão continua sendo uma companhia. Existe até o desejo de adotar um gato, algo que nunca pôde fazer na infância, mas que hoje simboliza a possibilidade de criar raízes próprias.

Entre livros, música e memórias, Laís constrói aos poucos a casa que agora também carrega suas próprias marcas (Foto: Marianne Santana)

Hoje, ela entende que a saudade também é uma construção. A mãe e o irmão continuam próximos, mas a casa da infância já não comporta a mesma vida.

Os laços e o afeto permanecem, assim como a casa. O que mudou foi a forma como Lais passou a habitar o mundo e há alívio nisso.

A mãe e o irmão continuam próximos, mas Laís reconhece que a casa da infância já não comporta a mesma vida de antes (Foto: Arquivo pessoal/ Laís Neves)