Existe um tipo de perda que não tem nome certo. Não é só o luto, esse a gente conhece, tem rituais e palavras de conforto. Também não podemos chamá-lo de desabrigo, esse também tem nome e políticas públicas, formulários e programas sociais. O que a jornalista Luana Souza viveu em 2025 foi as duas coisas ao mesmo tempo, num intervalo de menos de sessenta dias.
Em fevereiro, ela perdeu a mãe. Em abril, o fogo consumiu a casa onde cresceu, construiu memórias com os pais e os irmãos e que, pouco tempo antes, havia voltado a chamar de lar.
"Eu acho que até hoje eu não sei definir o que eu senti. Porque você não quer estar vendo aquilo. Era a minha vida ali. Eu nasci, eu cresci naquela casa. E a vida inteira dos meus pais também, dos meus irmãos. Então, muitas memórias ali. Muitas mesmo", conta Luana.
As chamas não deixaram nada. Segundo dados do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, em 2025, foram registrados 4.617 incêndios em edificações não sujeitas ao Regulamento de Segurança Contra Incêndios (RSCI), como casas e sobrados residenciais. Até abril de 2026, já eram 1.323 ocorrências contabilizadas pela corporação.
A casa da família Souza durante o incêndio que consumiu décadas de memórias (A ilustração foi criada com inteligência artificial com base em fotografias reais do episódio)