Ainda Casa

A casa que nos molda

Um caseiro que vive no "quintal de Deus" e uma geógrafa que aprendeu a dormir sem medo da chuva mostram que a experiência de habitar vai muito além de ter um endereço

Por: Ana Clara Magro e Leandro Pinheiro

As políticas públicas brasileiras mediram a falta de casa pela ausência de paredes, teto e endereço. A lógica parece simples: quem não tem moradia precisa de uma moradia, mas a experiência cotidiana mostra que a questão nem sempre termina quando a chave gira na fechadura.

Existe uma diferença entre ter onde dormir e conseguir descansar que não aparece nos censos demográficos ou em em contratos de aluguel. Na obra "Espaço, Lugar e Gênero” (2009), a geógrafa Doreen Massey, uma dasprincipais vozes da geografia feminista, tenta separar duas palavras que em inglês são distintas e em português a gente confunde o tempo todo: house e home. A primeira é a casa enquanto construção. A segunda trata do lar, o lugar onde algo em você reconhece que chegou. Massey argumentava que essa diferença não é poética, mas sim política. Nem todo mundo que tem uma house tem um home. E decidir quem merece o quê sempre foi uma questão de poder.

No Brasil, a casa como direito ainda é uma promessa para muita gente. Segundo o Ministério das Cidades, a partir da atualização dos dados da pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro (FJP) para o ano de 2024, o déficit habitacional chegou ao menor patamar da história: 5.773.983 famílias não tem moradia adequada, o que representa 7,4% do total de domicílios particulares ocupados no país.

No entanto, mesmo entre quem tem onde morar, a pergunta de Massey continua aberta: ter um teto é o mesmo que ter um lar? É essa diferença que ajuda a explicar por que algumas pessoas passam a vida tentando voltar para casa enquanto outras contam os dias para ir embora.

A geógrafa Laís Neves, doutoranda pela Unesp de Presidente Prudente, aprendeu isso antes mesmo de transformar o tema em objeto de pesquisa. “É difícil que a gente exista sem um significado de casa, seja ele bom ou ruim”, afirma. Para ela, ninguém escapa da influência desse primeiro território.

Na assistência social, essa ruptura aparece diariamente. Segundo a assistente social, Ariane Jacintho, que até maio de 2026 chefiou a Secretaria de Municipal de Assistência Social de Presidente Prudente e, atualmente, atua como assessora da pasta, muitas das vulnerabilidades enfrentadas pelas famílias começam justamente quando a ideia de casa deixa de significar proteção.

Em Presidente Prudente, cerca de 250 pessoas vivem atualmente em situação de rua, segundo dados da Assistência Social. A maioria é formada por homens com histórico de dependência química e rompimento familiar.

“A política de assistência trabalha com vulnerabilidades materiais e subjetivas. Quando a família consegue organizar a questão da moradia, muitas outras partes da vida começam a avançar também.”, explica Ariane.

A casa de Deus

No dia em que Eduardo Camargo assinou o contrato, ele ganhou um emprego e um endereço. Os dois no mesmo lugar. A casa fica dentro da Cúria Diocesana de Presidente Prudente, entre a Paróquia de Nossa Senhora Mãe da Igreja, o Seminário Diocesano e a Rádio Onda Viva. Para chegar ao trabalho, ele precisava de vinte passos. Para sair do trabalho, não existe caminho.

“Eu entrei aqui no dia 16 de janeiro de 2018. É uma data inesquecível porque foi a chavinha que mudou a minha vida. Aqui para mim é o paraíso. Aqui está o representante do Papa, o Bispo [Dom Benedito] que é, inclusive, o meu patrão. É muito bom estar morando aqui. Tanto é que faz oito anos e, se eu puder ficar aqui até o resto da minha vida, eu fico. Não pelo fato do registro de trabalho, mas pelo fato mesmo do costume, de estar aqui dentro”, afirma.

Há 8 anos Eduardo se dedica à Paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja, em Presidente Prudente (Foto: Marianne Santana)

Eduardo tem 49 anos, uma voz calma e uma função de nome simples: caseiro. Na prática, é o que ele mesmo define como “marido de aluguel”. Abre portões, troca lâmpadas, limpa, organiza, resolve o que quebra. Sua casa fica dentro do complexo que a maioria das pessoas de Presidente Prudente conhece por fora: a torre da igreja, o salão paroquial, o portão que às vezes está aberto e às vezes não. Eduardo é quem decide isso.

Eu falo que moro no quintal de Deus. Porque queira ou não, aqui tudo envolve religião. Se eu olho pra cima, estou olhando a igreja.”

Eduardo é uma das pessoas para quem a fronteira entre o espaço profissional e o íntimo existe mais no papel do que na planta da casa. O que muda, no caso dele, é o endereço específico e o que carrega.

Ele e a esposa Erika chegaram a Prudente “sem lenço e sem documento”, frase de Caetano Veloso que usa para descrever a mudança feita na urgência, sem emprego garantido, sem rede de apoio. Ela conseguiu uma faxina temporária na Cúria. O padre a viu trabalhar, gostou, ligou os pontos: o caseiro estava de saída, o espaço precisava de alguém. Algo, nas palavras do próprio padre, “estava tocando no coração” dele para ajudar aquela família. Eduardo hesitou: “o duro é trocar o certo pelo duvidoso”, relembra. Contudo, colocou em oração. E ficou.

Oito anos depois, seus três filhos crescem dentro desse complexo. Gabriel toca no ministério de música, Daniel entrou por conta própria na Pastoral da Acolhida, grupo responsável por recepcionar os fiéis antes das celebrações, e Rafael serve o altar como coroinha quase todo domingo.

“A religião tem que vir pelo amor, não pela obrigação”, Eduardo diz. E sorri, como quem sabe que teve sorte, ou graça, que para ele é a mesma coisa.

Família Camargo reunida após a missa. Da esquerda para direita: Gabriel, Eduardo, Annair Piva (sogra do Eduardo), Erika, Rafael (na frente da Erika) e Daniel (Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Camargo)

Casa é família

Quando se pergunta a Eduardo o que é casa, ele responde sem hesitar: a família.

“Muita gente julga que é o prédio, a construção. Mas a casa verdadeira é a família. Porque a vida só vai ter sentido a partir do momento que você está com a sua família. Eu andando com a minha família em qualquer lugar, ali é a minha casa”, afirma.

Para a geógrafa, Laís, que pesquisa mobilidade urbana e gênero, a reflexão sobre a casa vem antes da teoria. A resposta surge quase de forma instintiva. “Quando a gente fala de casa, a gente fala inevitavelmente de família. E a família, dentro da sociedade em que vivemos, carrega o peso do sistema heteronormativo, de classes, de gênero. Mas independente disso, por ser esse espaço primeiro das relações sociais, é difícil que a gente exista sem o significado da casa, seja ele bom ou ruim. Ela vai ser sempre a âncora”, explica.

Em Presidente Prudente, os arranjos domiciliares contam uma história de diversidade que a palavra "família" mal consegue abarcar. Veja o infográfico abaixo.

A âncora de Eduardo é firme, mas as âncoras também pesam. Por anos, ele acumulou dois vínculos, caseiro na Cúria e técnico de som na Paróquia. Duas responsabilidades e dois empregos. O domingo era o dia mais pesado. Morar no quintal de Deus é um privilégio, mas, às vezes, na correia, Eduardo não consegue encontrar seu vizinho lá dentro. “Muitas vezes eu não comungava”, admite. “Porque eu não fiz a minha missão de religiosidade. Fiz a minha missão de profissional”, conta.

Quando chegava em casa, após os compromissos na igreja, a família já tinha dormido. O tempo que poderia estar com os filhos, ele estava descansando. ”A nossa vida aqui tinha virado uma rotina. Trabalho, casa. No meu caso, trabalho. O tempo que eu poderia estar com eles, eu estava descansando porque tinha trabalhado", comenta.

A explicação de Eduardo é interrompida pelo som de alguém chamando do lado de fora da casa. Ele se levanta, pede licença e atravessa o quintal da Cúria. A pessoa procura uma sala que ele já havia deixado aberta minutos antes da entrevista começar. Mesmo assim, ele para o que estava fazendo para explicar onde fica a entrada. Depois volta sorrindo, quase como se a interrupção confirmasse aquilo que tentava descrever havia mais de uma hora: morar dentro da igreja significa estar sempre disponível. "É viver entre a cruz e a espada", resume.

Mesmo fora do horário de expediente, muita gente desce até a casa da família para pedir ajuda, abrir uma porta ou resolver algum problema. Quando não consegue atender, Eduardo sente o peso do julgamento. "Às vezes a pessoa acha que você não quer ajudar. Mas depois eu sou cobrado por ter aberto fora do horário."

Foi quando ele e Erika conversaram e decidiram abrir mão do segundo vínculo. A partir de abril, Eduardo abandonou o posto de técnico de som da igreja. "Eu pensei: 'e minha família, onde fica?'", justifica a decisão.

A casa que dói

Para Eduardo, a pergunta era onde encontrar tempo para a família. Para outras pessoas, a questão é mais radical: como permanecer em uma casa que nunca foi abrigo?

Laís encontrou reflexões para esta questão muito antes de se tornar um objeto de pesquisa na Geografia. Surgiu dentro da própria casa. Ou, mais precisamente, nas noites de chuva. Quando chovia à noite, ela acordava com o teto do quarto pingando. Ela achava que era assim. Que teto era aquilo. Há três meses, ela se mudou. Mora sozinha pela primeira vez. Na primeira semana de chuva, abriu os olhos no meio da noite e demorou alguns segundos para entender que estava seca,que o teto era outro. "Até hoje, quando chove, eu ainda abro o olho assim. E eu demoro para entender que posso descansar", conta. É com essa experiência que ela chegou à sua definição mais pessoal de casa: onde pode descansar sem medo de dormir.

A geógrafa, Laís Neves, questiona a ideia de que casa e acolhimento são sinônimos (Foto: Marianne Santana)

Para a geografia feminista, defendida por Laís, a materialidade do espaço não é neutra, ela age sobre quem vive dentro dela, afinal o espaço é um sistema de objetos e ações como apontava Milton Santos. O teto que vazava produzia uma ação sobre ela todas as noites. A insônia. A tensão. A impossibilidade de descanso completo. E produzia algo mais silencioso: a ideia de que aquilo era normal, que casa era aquilo.

“A geografia tradicional tratava a casa principalmente como espaço de reprodução, onde o trabalhador descansa para voltar ao trabalho”, explica. “Como se a casa fosse só uma engrenagem do sistema. A geografia feminista veio romper com isso. Veio dizer: dentro dessa casa acontecem relações de poder, de gênero, de classe. Essas relações não ficam do lado de fora quando você fecha a porta, elas moram lá dentro.”

Às vezes a casa é sinônimo de violência. Ela não se configura um lar, ou ela é um lar do qual eu não quero estar. A teoria feminista vem romper com a ideia de que a casa é sempre acolhimento, porque não é. Para muita gente, o perigo mora dentro.”

O lar inesperado

Existe um ponto em que as trajetórias de Eduardo e Laís se aproximam. Para Eduardo, a igreja é o endereço. É onde trabalha, onde mora e onde os filhos cresceram. Para Laís, a igreja também ocupa um lugar importante na memória, embora por razões diferentes.

"Contraditoriamente, o espaço que é o locus de opressão de muitas coisas que eu estudei é também um local onde eu me sinto pertencente. Porque é onde estão as relações. Não são relações de hoje, são do momento mais importante da vida depois da infância, que é a adolescência. As pessoas dali sabiam da minha sexualidade antes da minha casa. A paróquia soube antes do meu pai”, compartilha.

A mesma instituição que a geografia feminista aponta como reprodutora de hierarquias foi, para Laís, o primeiro espaço seguro para ser ela mesma. Laís não generaliza. Faz questão de marcar: aquela paróquia específica. Não todas. Mas esse detalhe, a igreja como lar antes da própria casa, é o tipo de coisa que não cabe em teoria nenhuma. Cabe só na vida.

Desde os 11 anos, Laís canta e toca na Paróquia Santa Rita de Cássia. Entre o som dos instrumentos e o cheiro da madeira da igreja, construiu vínculos que transformaram o espaço em um lugar de pertencimento (Foto: Arquivo pessoal/Laís Neves)