Voltar nem sempre é retornar
Foi nesse período que começaram as visitas e as tentativas de reaproximação com a mãe biológica, um procedimento previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quando a Justiça avalia a possibilidade de reconstrução dos vínculos familiares. A expectativa de voltar para perto da família, no entanto, logo se chocou com a realidade.
A mãe morava de favor em uma casa cujo proprietário estava preso. Quando ele deixou a prisão e retornou ao imóvel, passou a viver com a mãe e as irmãs. Foi também nessa época que a irmã mais velha, que anos antes havia deixado o abrigo para voltar a morar com a mãe, tornou-se usuária de drogas.
Embora tivesse apenas 11 anos, as lembranças daquele período ainda permanecem vivas. Thais recorda as noites atravessadas pelo cheiro forte das substâncias espalhado pela casa, os episódios em que a irmã tinha alucinações sob efeito de drogas e as madrugadas eram interrompidas por crises que impediam todos de dormir. Enquanto observava aquilo, tentava entender o que significava voltar para casa. “A vida me forçou a ser adulta”, reflete. Era uma infância marcada pela sensação constante de vigilância, como se fosse necessário permanecer alerta para antecipar o próximo problema.
Foi nesse contexto que Thais percebeu, ainda criança, que não queria permanecer ali. Enquanto a irmã mais nova enxergava naquela casa a oportunidade de voltar para a família, ela via algo diferente. “Para minha irmã, nada disso importava. Só importava se ela tivesse uma casa com a família dela”, conta.
Para Thais, porém, a ideia de lar já não estava ligada apenas aos laços biológicos. As visitas fizeram com que ela entendesse, aos 11 anos, que aquele não era o lugar onde queria crescer. “Eu já tinha o entendimento de que aquilo eu não queria para mim. Ali não seria a minha casa”, admite.
Ela nunca contou ao juiz ou à assistente social todos os detalhes do que acontecia durante as visitas. Em vez disso, repetia apenas o essencial: não queria voltar. Quando chegou o momento de decidir seu futuro, sentou diante da assistente social e foi direta. “Eu falei: ‘Eu não quero ir com a minha mãe. Eu não quero morar com ela. Eu não quero sair do lar para ir para casa da minha mãe’.”
Paradoxalmente, foi ao recusar a casa onde estava sua família biológica que Thais começou a se aproximar daquilo que buscaria pelos anos seguintes. Embora tenha passado por diferentes lares até completar 18 anos, ela diz que nunca se sentiu verdadeiramente em casa naquele ambiente. A sensação de pertencimento viria muito mais tarde, construída longe dali e nos próprios termos dela.