O que é casa?
Construções podem ser contadas, medidas e localizadas no mapa, mas o significado de lar vai além dos número
Por: Leandro Pinheiro
Durante a infância, aprendemos que casa é uma palavra simples, morfológica e simbolicamente. Basta apontar para uma construção. Mais simples ainda é desenhar: um quadrado e um triângulo no topo. Quatro paredes, um teto, uma porta. Casas mais elaboradas requerem o mais alto nível de retângulos e círculos para janelas. A casa, a montanha e algumas nuvens no céu. Mas basta crescer um pouco para descobrir que não é tão fácil assim explicar sua casa e porque o açúcar fica na geladeira (ou não).
Há quem passe a vida inteira procurando uma casa maior, quitar um financiamento ou sair do aluguel. Existe quem sonhe em deixar sua casa e quem queira (ou precise) voltar. Pessoas que carregam a própria casa dentro de uma mochila, de uma fotografia ou de uma lembrança que insiste em não ir embora, e pessoas que nunca acharam um lar.
Talvez por isso seja tão difícil responder o que é uma casa. A palavra é pequena demais para tudo o que ela precisa guardar em duas sílabas: os aniversários, brigas, roupas esquecidas no varal, retratos, goteiras e o cachorro esperando atrás do portão.
Guarda também aquilo que tentamos esconder em uma gaveta de papéis. As ausências, silêncios, saudades e até violência.
Em “A Casa”, poema de Vinicius de Moraes, musicado por Toquinho, existe uma casa engraçada. Nela não tinha teto, chão, nada.
Durante anos, ouvimos essa música como uma brincadeira, mas talvez ela esconda uma pergunta: o que faz uma casa ser uma casa? São os tijolos? O endereço? A escritura? Ou seria alguma coisa mais difícil de nomear?
Porque existem pessoas que possuem uma casa e nunca encontraram um lar. E existem pessoas que perderam tudo, menos a sensação de pertencimento.
Ao longo desta reportagem, acompanhamos histórias que atravessam diferentes formas de habitar o mundo: o sonho de construir uma família, a realidade que transforma os planos, as encruzilhadas que obrigam alguém a partir, voltar ou recomeçar e o alívio silencioso de finalmente encontrar um lugar onde seja possível descansar.
São histórias diferentes entre si, mas todas elas orbitam a mesma pergunta. Uma pergunta antiga que atravessa cidades, gerações e memórias. Quando dizemos a palavra “casa”, afinal, do que estamos falando?