A âncora de Eduardo é firme, mas as âncoras também pesam. Por anos, ele acumulou dois vínculos, caseiro na Cúria e técnico de som na Paróquia. Duas responsabilidades e dois empregos. O domingo era o dia mais pesado. Morar no quintal de Deus é um privilégio, mas, às vezes, na correia, Eduardo não consegue encontrar seu vizinho lá dentro. “Muitas vezes eu não comungava”, admite. “Porque eu não fiz a minha missão de religiosidade. Fiz a minha missão de profissional”, conta.
Quando chegava em casa, após os compromissos na igreja, a família já tinha dormido. O tempo que poderia estar com os filhos, ele estava descansando. ”A nossa vida aqui tinha virado uma rotina. Trabalho, casa. No meu caso, trabalho. O tempo que eu poderia estar com eles, eu estava descansando porque tinha trabalhado", comenta.
A explicação de Eduardo é interrompida pelo som de alguém chamando do lado de fora da casa. Ele se levanta, pede licença e atravessa o quintal da Cúria. A pessoa procura uma sala que ele já havia deixado aberta minutos antes da entrevista começar. Mesmo assim, ele para o que estava fazendo para explicar onde fica a entrada. Depois volta sorrindo, quase como se a interrupção confirmasse aquilo que tentava descrever havia mais de uma hora: morar dentro da igreja significa estar sempre disponível. "É viver entre a cruz e a espada", resume.
Mesmo fora do horário de expediente, muita gente desce até a casa da família para pedir ajuda, abrir uma porta ou resolver algum problema. Quando não consegue atender, Eduardo sente o peso do julgamento. "Às vezes a pessoa acha que você não quer ajudar. Mas depois eu sou cobrado por ter aberto fora do horário."
Foi quando ele e Erika conversaram e decidiram abrir mão do segundo vínculo. A partir de abril, Eduardo abandonou o posto de técnico de som da igreja. "Eu pensei: 'e minha família, onde fica?'", justifica a decisão.