Ainda Casa

Onde mora o lar

Ao deixar para trás lugares, rotinas e certezas, Vinícius Dalama e Thais Silva descobriram que o sentimento de lar pode ser encontrado à distância

Por: Ana Clara Magro e Leandro Pinheiro

As pessoas costumam sonhar em alcançar algo: entrar pela primeira vez na casa própria, desembarcar no destino que antes só existia na imaginação ou encontrar alguém com quem dividir a vida. Muitas vezes, os sonhos só começam a ser construídos quando alguém decide partir.

Para Thais Silva, recomeçar sempre fez parte da vida. Hoje, aos 27 anos, ela relembra uma infância marcada por despedidas e recomeços, em que a sensação de não pertencer completamente a lugar algum caminhava lado a lado com a incerteza de quanto tempo aquela casa ainda existiria.

A primeira ruptura aconteceu quando Thais ainda aos dois anos de idade. Após anos enfrentando problemas com alcoolismo, sua mãe perdeu a guarda dela e das três irmãs. Depois de uma denúncia feita ao Conselho Tutelar, as quatro foram levadas para um abrigo em Presidente Prudente. A partir de então, uma nova realidade começou a se desenhar em sua vida. A história de Thais se soma à de milhares de crianças brasileiras que vivem em instituições de acolhimento. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mais de 36 mil crianças e adolescentes estão atualmente nesses serviços em todo o país.

“No lar foi o meu primeiro contato com uma segunda casa”, lembra. Ali, havia comida na mesa, roupas limpas, escola e os cuidados necessários para crescer. Havia um teto para protegê-la e uma cama para dormir. Mas existiam ausências que nenhuma dessas coisas conseguia preencher. Elas surgiam nos comentários das outras crianças na escola: a mãe que levaria ao cinema, o pai que buscaria na saída da aula. Para a maioria, eram apenas partes da rotina. Para Thais, pareciam palavras de um idioma estrangeiro, algo que ela ouvia, compreendia de longe, mas nunca havia vivido.

O lar te dá todo o suporte que você precisa, mas você sente que falta alguma coisa. Porque você não tem o amor de uma mãe, você não tem o amor de um pai, você não tem o amor de um irmão”

Algum tempo depois, a mãe recuperou a guarda das irmãs mais velhas, mas Thais e a irmã mais nova permaneceram no abrigo. Foi nesse período que surgiu a possibilidade de adoção. Embora o Brasil registre mais de 32 mil pretendentes habilitados à adoção, apenas cerca de 6 mil crianças e adolescentes atualmente aptos a serem adotados aguardam uma família, segundo o CNJ.

No caso de Thais e da irmã, a legislação brasileira determinava um cuidado específico. Grupos de irmãos devem ser mantidos juntos sempre que possível, uma diretriz prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para preservar os vínculos familiares. Assim, quando uma mulher manifestou interesse em adotar apenas a irmã caçula, a recomendação da Justiça foi que as duas permanecessem juntas.

“Eu tinha uns cinco anos. Ela queria só a minha irmã, mas me levou também”, relembra. Apesar da mudança, a sensação de pertencimento nunca chegou. “Consigo lembrar que foi uma casa que eu tive, mas que não era uma casa que me pertencia.” Com o passar do tempo, a mulher decidiu deixar Thais aos cuidados de familiares em Marília e permanecer apenas com a irmã mais nova. “Ela optou por me dar para a família dela e ficar só com a minha irmã”, conta.

Thais foi levada para mais duas casas, no entanto, nenhuma das duas correspondia àquilo que ela mais desejava encontrar. Havia a figura de um pai, uma mãe e irmãos, mas os papéis pareciam existir apenas na aparência: ela não se sentia parte da família.

Porém, ao atravessar a porta de mais um lar temporário em Marília, a cerca de 180 quilômetros de Presidente Prudente, outra mudança aconteceria. Uma equipe passou a investigar sua história e conseguiu reconstruir parte de sua trajetória, esse trabalho permitiu que ela retornasse para Prudente, onde descobriu que a irmã também havia voltado ao abrigo depois que sua adoção também não havia dado certo. Mais uma vez, os caminhos das duas se cruzavam.

“Eu era uma criança, eu não sabia quem era a minha família. Eu tinha perdido a feição da minha mãe, eu não sabia como que ela era. Não sabia nem como que era a minha irmã que eu tinha me separado. Não sabia de onde eu vinha. Eu estava perdida”, descreve. Contudo, esse reencontro deu a ela novas expectativas de futuro.

Voltar nem sempre é retornar

Foi nesse período que começaram as visitas e as tentativas de reaproximação com a mãe biológica, um procedimento previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quando a Justiça avalia a possibilidade de reconstrução dos vínculos familiares. A expectativa de voltar para perto da família, no entanto, logo se chocou com a realidade.

A mãe morava de favor em uma casa cujo proprietário estava preso. Quando ele deixou a prisão e retornou ao imóvel, passou a viver com a mãe e as irmãs. Foi também nessa época que a irmã mais velha, que anos antes havia deixado o abrigo para voltar a morar com a mãe, tornou-se usuária de drogas.

Embora tivesse apenas 11 anos, as lembranças daquele período ainda permanecem vivas. Thais recorda as noites atravessadas pelo cheiro forte das substâncias espalhado pela casa, os episódios em que a irmã tinha alucinações sob efeito de drogas e as madrugadas eram interrompidas por crises que impediam todos de dormir. Enquanto observava aquilo, tentava entender o que significava voltar para casa. “A vida me forçou a ser adulta”, reflete. Era uma infância marcada pela sensação constante de vigilância, como se fosse necessário permanecer alerta para antecipar o próximo problema.

Foi nesse contexto que Thais percebeu, ainda criança, que não queria permanecer ali. Enquanto a irmã mais nova enxergava naquela casa a oportunidade de voltar para a família, ela via algo diferente. “Para minha irmã, nada disso importava. Só importava se ela tivesse uma casa com a família dela”, conta.

Para Thais, porém, a ideia de lar já não estava ligada apenas aos laços biológicos. As visitas fizeram com que ela entendesse, aos 11 anos, que aquele não era o lugar onde queria crescer. “Eu já tinha o entendimento de que aquilo eu não queria para mim. Ali não seria a minha casa”, admite.

Ela nunca contou ao juiz ou à assistente social todos os detalhes do que acontecia durante as visitas. Em vez disso, repetia apenas o essencial: não queria voltar. Quando chegou o momento de decidir seu futuro, sentou diante da assistente social e foi direta. “Eu falei: ‘Eu não quero ir com a minha mãe. Eu não quero morar com ela. Eu não quero sair do lar para ir para casa da minha mãe’.”

Paradoxalmente, foi ao recusar a casa onde estava sua família biológica que Thais começou a se aproximar daquilo que buscaria pelos anos seguintes. Embora tenha passado por diferentes lares até completar 18 anos, ela diz que nunca se sentiu verdadeiramente em casa naquele ambiente. A sensação de pertencimento viria muito mais tarde, construída longe dali e nos próprios termos dela.

Onde, enfim,
existe casa

A mudança começou aos 18 anos, quando Thais descobriu que estava grávida. A notícia chegou de forma inesperada. Ela era jovem, não havia planejado ser mãe e ainda tentava encontrar o próprio lugar no mundo. Os primeiros meses da gestação foram marcados por complicações e incertezas, mas nada a preparou para o momento em que segurou o filho nos braços pela primeira vez.

Ele nasceu em maio de 2019, em um domingo pela manhã. Uma semana depois, seria celebrado o Dia das Mães. Thais lembra daquele encontro como um divisor de águas em sua vida. “Foi um amor inexplicável. É como se sarasse tudo o que eu tinha sentido. Como se ele cicatrizasse tudo o que doía em mim”, recorda. Depois de uma infância marcada por dificuldades, ela encontrou naquele vínculo algo que nunca havia experimentado antes.

“Quando eu tive o meu menino, toda e qualquer dúvida que eu tinha de família, de amor, de casa, foi sanada”, explica. Para ela, a maternidade trouxe respostas para perguntas que carregava desde criança. O que antes parecia faltar ganhou um novo significado na relação construída com o filho. “O sentimento de casa não é uma casa material, é a quem você pertence. Eu pertenço ao meu filho e ele pertence a mim. Então eu sempre vou ter para onde recorrer, e ele também.”

Pela primeira vez, a ideia de lar deixou de ser uma busca e passou a ser uma certeza. A casa que procurou em tantos endereços, famílias e tentativas de recomeço não estava em um lugar específico, mas nos laços que construiu ao longo da vida. Hoje, ao falar sobre pertencimento, Thais não pensa em paredes ou móveis. Pensa no filho, na família que formou e na liberdade de finalmente ocupar um espaço sem precisar pedir permissão para existir. “O meu abrigo é o meu filho. A minha casa.”

Foi um choque descobrir que estava grávida, mas a maternidade trouxe respostas que Thais procurava desde criança (Foto: Arquivo pessoal / Thais Silva)

Depois de anos procurando um lugar onde pertencer, Thais encontrou no filho a resposta para suas dúvidas sobre família, amor e lar (Foto: Marianne Santana)

O sonho estava longe de casa

Enquanto Thais precisou percorrer diferentes casas até encontrar o próprio sentido de lar, Vinícius Dalama cresceu com uma percepção diferente sobre o que significa estar em casa. Aos 25 anos, ele conta que nunca sentiu necessidade de preencher os espaços onde mora ou transformá-los constantemente. “Pintar, colocar alguma coisa, furar a parede e assim por diante, nunca foi uma coisa que eu vi como necessidade”, explica. Para ele, o sentido de casa está menos ligado aos objetos que ocupam um endereço e mais às memórias que carrega consigo, e são muitas.

Natural de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, a segunda cidade mais indígena do Brasil, com mais de 93% da população sendo pertencente a uma dentre vinte etnias (IBGE), Dalamamorou com a mãe e a avó em uma casa na beira do Rio Negro, onde mergulhava escondido e tomava bronca ao retornar. “É um sonho que eu não soube aproveitar quando eu era mais jovem. Uma criança não acha tão legal assim ter o Rio Negro na frente de casa. Seria mais legal ter um McDonald's”, brinca.

Outro alvo de suas peraltices eram duas muretinhas no canto da casa em que se pendurava para ter a sensação de estar flutuando. “Não tem uma vez que eu passo por esse canto e eu não me vejo ali. É uma memória que não deveria marcar, era uma brincadeira de uma criança, mas me marca muito”, ele relembra essas histórias não com nostalgia, mas sim como memórias de um tempo onde as coisas eram mais simples: “Eu lembro de um menino livre que vivia bem, de frente para o rio, que não tinha a valorização desse momento quando eu era pequeno, tinha presença de familiares, não tinha frustrações”, reflete.

Apesar do apego à cidade e às lembranças que carrega dela, ainda na juventude, havia um desejo inquieto de descobrir o que existia para além das águas e das ruas já conhecidas, então decidiu deixar a cidade natal. O primeiro destino foi Campo Grande (MS). Depois, foi morar com o pai no Rio Grande do Norte (RN), porém, o seu futuro não parecia estar em nenhuma dessas cidades, até que descobriu na pandemia qual profissão queria seguir.

Sabe lá Deus porque, eu acabei me apegando muito à ideia de ser jornalista. Então, eu sabia que para me desenvolver nessa área, eu tinha que sair de lá”

Aprender a recomeçar

Assim como muitos jovens que deixam suas cidades em busca de uma universidade, Dalama passou meses pesquisando lugares onde pudesse construir uma nova vida. Procurava não apenas um curso de Jornalismo, como também um lugar que oferecesse estrutura e oportunidades para seguir o sonho de trabalhar com comunicação. Assim, encontrou Presidente Prudente (SP), conhecida como a “capital do oeste paulista”, com cerca de 225.668 habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A mudança também significava atravessar distâncias simbólicas. Dalama saiu de São Gabriel da Cachoeira para viver em um município no interior paulista com população mais de quatro vezes maior do que a sua de origem.

Outro fator que influenciou sua escolha foi ter alguns primos na região. Apesar de não cultivarem tanta intimidade, sentia uma certa segurança em ter uma parte da família por perto quando precisasse. “Eu tentei unir o útil ao agradável, ter família, alguns familiares e morar em um lugar que tivesse um certo desenvolvimento para o jornalismo”, explica Dalama.

Então, há cinco anos, Dalama se mudou para Prudente e passou a morar com uma amiga. Desde então, já viveram em duas casas. Ele decidiu se matricular na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), então achou uma casa próxima a ela. O problema é que a faculdade tem dois campi. “Eu não sabia que minha faculdade seria no campus 2. Eu loquei a casa e morei lá por uns dois anos, porque era próximo da faculdade, na minha cabeça. E aí, não era próximo, tive que pegar ônibus todos os dias”, recorda. Ele acabou se encantando pelo bairro e se mudou para sua atual residência seis ruas acima após dois anos de sua chegada.

A adaptação à vida sozinho não aconteceu sem desafios. Dalama foi cobrado pela mãe desde cedo para manter as coisas em ordem e confessa que não dava ouvidos a ela, até ter a própria casa para arrumar. Conciliar os estudos com o trabalho e as atividades diárias, como se organizar para preparar as refeições, fizeram o jornalista passar por dias em que não almoçava pela falta de tempo para cozinhar, ou melhor, aprender a cozinhar. “Para quem mora sozinho é o primeiro baque, quando a gente faz o nosso primeiro arroz e fala ‘meu Deus, isso está horrível’”, reconhece. Uma das faltas que sentiu foi da comida que a mãe e a avó preparavam. “É quando a gente percebe que aquela pessoa tinha um zelo muito grande pela gente.”

Hoje Vinícius mora em Presidente Prudente, a mais de 2000 km da casa da avó (Foto: Marianne Santana)

Ainda assim, ele acredita que aprendeu cedo a lidar com mudanças e perrengues. Filho de pais separados, Dalama conta que nunca teve a sensação de permanência. Havia anos em que estava cercado de amigos, jogando bola e vivendo uma rotina cheia de companhia; em outros, precisava começar do zero, conhecer pessoas novas e reconstruir laços. “Eu me acostumei muito cedo a estar longe deles, a mudar minha rotina.” Talvez por isso, mesmo sentindo o impacto da chegada a Presidente Prudente, tenha conseguido se adaptar rapidamente. “Eu senti um baque muito grande, mas eu já estava acostumado a sentir esse baque na minha vida.”

A capacidade de adaptação que Dalama desenvolveu vem de encontro com as reflexões da psicóloga junguiana Natália Lopes. De acordo com a especialista, essa área da psicologia explica que os diferentes lugares, relações e experiências fazem com que determinados aspectos da personalidade se tornem mais evidentes ao longo da vida, moldando a forma como cada indivíduo se adapta ao mundo ao seu redor. Ela explica que “as pessoas que se mudam muito têm uma capacidade muito grande de se adaptar, meio ‘camaleônica’. Ou pode ter uma grande dificuldade, mas sempre dá um jeito”.

Mesmo distante da cidade onde cresceu, Dalama nunca sentiu que havia deixado completamente para trás aquilo que considera seu lar. Para ele, a família continua sendo a principal referência de pertencimento.

“Eu aprendi a enxergar em mim que essas memórias estão presentes comigo. Então, eu me sinto em casa, sabe? Eu consigo, onde eu estiver, trazer essas pessoas na minha mente, o meu sonho, carregar ele comigo.” Para ele, o lar não está preso a um endereço específico, mas às lembranças, aos afetos e às histórias compartilhadas ao longo da vida.

Hoje, quando pensa naquilo que o faz se sentir em casa, não fala das cidades por onde passou nem das casas em que morou. Fala da família, das memórias que o acompanham e da certeza de que elas permanecem presentes independentemente da distância. “Onde eu estiver, eu vou conseguir enxergar um lar, porque vou estar carregando comigo todas essas pessoas, todas essas memórias.” Afinal, se os sonhos o fizeram partir, foram os laços construídos ao longo do caminho que lhe ensinaram que a casa nunca deixou de ir com ele.

Para Natália, na psicologia junguiana, a ideia de casa ultrapassa a noção de um espaço físico e se relaciona diretamente com identidade e pertencimento (Foto: Marianne Santana)

Para Natália, na psicologia junguiana, a ideia de casa ultrapassa a noção de um espaço físico e se relaciona diretamente com identidade e pertencimento (Foto: Marianne Santana)

Mesmo distante da cidade onde cresceu, Dalama nunca sentiu que havia deixado completamente para trás aquilo que considera seu lar. Para ele, a família continua sendo a principal referência de pertencimento.

“Eu aprendi a enxergar em mim que essas memórias estão presentes comigo. Então, eu me sinto em casa, sabe? Eu consigo, onde eu estiver, trazer essas pessoas na minha mente, o meu sonho, carregar ele comigo.” Para ele, o lar não está preso a um endereço específico, mas às lembranças, aos afetos e às histórias compartilhadas ao longo da vida.

Hoje, quando pensa naquilo que o faz se sentir em casa, não fala das cidades por onde passou nem das casas em que morou. Fala da família, das memórias que o acompanham e da certeza de que elas permanecem presentes independentemente da distância. “Onde eu estiver, eu vou conseguir enxergar um lar, porque vou estar carregando comigo todas essas pessoas, todas essas memórias.” Afinal, se os sonhos o fizeram partir, foram os laços construídos ao longo do caminho que lhe ensinaram que a casa nunca deixou de ir com ele.